5 de maio de 2017

Falta

Chego, abro a porta de casa, e coloco o pé na porta para que não saias.
Vejo-te na esquina, debaixo da cadeira, à porta da cozinha. Sinto o teu olhar do alto do móvel das toalhas no corredor, e ás vezes até ouço os teus miados, aqueles que fazias quando percorrias a casa toda, de rato de peluche na boca, a chamar por um de nós.
Quando me levanto, ainda meio estremunhada avisto-te no tapete da casa de banho à minha espera... Não te vejo realmente, porque não estás lá, mas à luz difusa da manhã quase parece que sim. 
Ainda fecho as portas  e gavetas de armários, ainda deixo a marquise aberta, ainda fecho a casa de banho para não destruíres o papel higiénico. Antes de sair de casa, ainda coloco o batente nas portas para não ficares trancado nos quartos. 
Ainda hesito em deixar a comida na bancada, à cautela.
Ainda te sinto passear no quarto de noite... e acordo em sobressalto, porque me lembro que os barulhos que oiço não podem ser teus. Ás vezes viro-me de repente, e vejo-te pelo canto do olho. Mas era só um saco de compras esquecido no chão, um reflexo de luz, ou um brinquedo mal arrumado. Sei que não estás, mas ainda me esqueço.
Ela falta-me nos momentos de repouso, na quietude do final do dia, quando conjuro em mim a lembrança doce daquela adoração discreta. Sinto o vazio, quando não aparece ao final da noite a pedir mimos, a ronronar, e a exigir o seu lugar colada a mim. Ela era sombra, olhos que nos seguiam sem aparecer, presença que se sentia sem se ver, adoração silenciosa. mas tu, estavas lá, estavas sempre lá. Sempre à vista, colado aos pés, sentado ao nosso lado, a brincar, a correr, a exigir atenção. Sempre luz, nunca sombra. 
Presente, sempre presente.    





Sem comentários: